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Princípio de Gervais

por 07/11/2017abril 30th, 2021No Comments

As organizações divididas entre sociopatas, clueless e losers

O ator e diretor inglês Ricky Gervais, criou e lançou a série The Office no Reino Unido em 2001. A série é um falso documentário que mostra o dia a dia numa empresa que vende papel. A comédia explora situações ridículas passadas por personagens, facilmente reconhecidos por quem já trabalhou em um ambiente de escritório. A semelhança é tamanha que muitas pessoas acreditaram que o programa era um documentário com pessoas reais.

A série teve duas temporadas de 6 episódios e um especial de Natal. Devido ao sucesso remakes foram feitos na França (Le Bureau), Alemanha (Stromberg), Canadá (La Job), Chile (La Ofis) e Israel (HaMisrad). No entanto, o remake mais longevo e de maior sucesso foi o americano, homônimo do inglês. Foram 9 temporadas somando um total de 201 episódios.

Venkatesh Rao se utiliza dos personagens da versão americana do seriado, analisando seus perfis e papéis na organização para ilustrar seu ensaio e dissertar sobre o que ele chama de Princípio de Gervais em uma série de textos publicados em seu site. Ele divide todos os membros de uma organização em três categorias: sociopatas, clueless e losers.

A hierarquia das organizações segundo Rao
A hierarquia das organizações segundo Rao

Sociopatas

Os sociopatas estão no topo da hierarquia. Eles buscam resultados e não se importam com as consequências disto na vida de seus subordinados ou mesmo da organização. Para os sociopatas, os seus funcionários são peças substituíveis em uma engrenagem que serve para promover seus interesses. Clueless poderia ser traduzido como “sem noção”. Eles estão abaixo dos sociopatas na hierarquia e geralmente ocupam cargos de gerência.

Clueless

Segundo José Garcia de Araujo, psicólogo social, as organizações precisam da adesão racional e em especial afetiva dos membros. E é no aspecto afetivo que se destacam os clueless, os “sem noção” . Eles estão abaixo dos sociopatas na hierarquia e são os agentes de disseminação da cultura empresarial, com workshops e cursos de liderança. O trabalho tem um destaque muito grande em suas vidas e eles vêem os seus líderes — em geral sociopatas — com muita admiração.

Losers

loser ou perdedor é o funcionário que não tem muitas ambições. O trabalho para ele não passa de um meio de subsistência. O importante é o que acontece antes e depois do trabalho, por isso ele não vai fazer hora extra ou nada que não seja de sua responsabilidade. Seu caminho de ascensão em uma organização é ou “vestir a camisa” e se tornar um clueless ou traçar uma estratégia de ascensão agressiva e tornar-se um sociopata.

Genealogia das organizações

Rao apresenta um modelo que começa com um sociopata que tem uma ideia. Ele contrata losers para fazer o trabalho. Conforme a organização cresce são necessárias hierarquias mais complexas e gerenciamento. Neste ponto de desenvolvimento, Araujo (2012) diria que esta organização precisa ser também uma instituição com cultura, regras, valores e burocracias próprias.

clueless entra para disseminar esta nova cultura empresarial e servir de mediador entre os losers e os sociopatas. O número dos clueless na empresa vai aumentando proporcionalmente, cada vez mais, e a empresa começa a se alienar do trabalho que realmente sustenta a empresa desempenhado pelo loser. Muitas vezes isso se dá por esforços para diminuição de custos. O sociopata então recolhe todos os recursos que consegue seja vendendo a empresa ou falindo-a. O ciclo então recomeça.

Comunicação entre Sociopatas, Clueless e Losers

Entre os sociopatas, Rao diz haver uma linguagem chamada Powertalk ou conversa de poder. Os sociopatas têm entre si conversas pautadas pela objetividade e jogadas para conseguir mais poder.

Do sociopata para o clueless temos o chamado Babytalk, altamente manipulativo, cheio de promessas e discursos motivadores pelo lado positivo e recriminações e ameaças no lado da punição. É comparável a como um adulto tenta incentivar comportamentos em uma criança nova. O mesmo Babytalk é atribuído à comunicação do loser para o clueless, os manipulando de outra maneira, com reclamações e mau comportamento por um lado e uma falsa lealdade.

Do clueless para o psicopata temos o Posturetalk, onde o clueless se comunica com o seu líder com uma postura exemplar do ponto de vista profissional e busca causar uma ótima impressão. O clueless usa o mesmo tipo de linguagem entre eles mesmos e com os losers desta vez de cima para baixo hierarquicamente, tentando imprimir superioridade para com os subordinados.

É através do Posturetalk que a cultura e ideias da instituição descrita por Garcia de Araujo são disseminadas. Não é raro que funcionários utilizem palavras exclusivas à sua instituição, fora os jargões empresariais e de áreas específicas.

Entre os losers, temos o Gametalk, que tem algumas semelhanças com o Powertalk. É também competitiva, já que, por mais que não estejam interessados nos valores e missões da instituição, os losers têm seus interesses pessoais e não querem ser atrapalhados. Entre os losers é comum o surgimento de rivalidades e formação de grupos ou panelinhas.

Entre o loser e o sociopata temos uma comunicação franca. O loser não tem interesse em bajular o sociopata, que por sua vez sabe que suas habilidades de motivação não funcionam com este tipo de funcionário. Além disso, os clueless estão encarregados justamente de cuidar da efetividade dos losers.

É do interesse do sociopata ser simpático com o loser para que o boca a boca entre os funcionários sirva a aumentar sua aura de líder e portanto seu poder para com os subordinados.

Quem é você?

É fácil encaixar colegas nos arquétipos apresentados no Princípio de Gervais. No entanto, na hora de se autoavaliar acho que poucos seriam capazes de admitir que acredita cegamente em um líder ou que são enganados tanto pelos seus superiores quanto os subordinados. Muitos acham que são malandros. Poucos sabem que são otários.

Este texto é um resumo simplório da série de textos escritos por Venkatesh Rao, especificamente as partes 1 e 2 de um total de 6. Se o seu inglês estiver em dia, recomendo ler o ensaio inteiro ou comprar o livro no Kindle.